Opinião

“Sr. ex-presidente, RÉU CONDENADO:
Sou médico.
E sim, sou frio.
Frio o bastante para não chorar quando vejo um recém nascido morrer por falta de equipamentos e medicação nas UTIs.
Frio para não me descabelar frente a duzentas pessoas que entopem o pronto socorro logo pela manhã buscando desde uma palavra de apoio para suas crises existenciais até um procedimento que lhes salve a vida.
Frio para não sair correndo em desespero dos centros cirúrgicos onde falta sangue para a operação, onde o bisturi elétrico não funciona, onde a máquina de respiração artificial falha.
Frio para dar conforto e alento às famílias que devo comunicar a morte do parente, do pai, do filho, que faleceram pela falta de recursos desviados por políticos e empresários inescrupulosos que se unem para, “como nunca antes na história deste país”, assaltar os cofres públicos.
Também sou calculista.
Calculo as chances de morrer em um assalto tentando chegar ao trabalho.
Calculo as contas que não sei se irei pagar com meu salário que sempre atrasa, isso quando sou pago.
Calculo a idade em que não mais irei me aposentar e se chegarei até lá com alguma saúde.
Calculo por quanto tempo mais poderei aguentar um plantão após o outro, quantas horas a mais além das habituais 60 por semana devo fazer para pagar a escola dos filhos, o aluguel da casa, a compra do mercado.
Sou também um dissimulado.
Finjo não ver o descalabro moral que invadiu o país.
Simulo estar contente com as condições que tenho para tratar das vidas que me são confiadas.
Me engano acreditando que haverá uma luz no fim do túnel para a Medicina no Brasil. Mas acima de tudo, sou Médico.
Apesar de você. Apesar do PT.
Apesar dos políticos que estão acabando com este país, eu vou levantar pela manhã e lutar com todas as minhas forças pelo bem de meus pacientes.
Estou livre para poder fazer isso até quando Deus o desejar.
Ao senhor, espero que pague por todo dano que fez a esta nação.
Então, de maneira calculista e com alguma dissimulação, lhe digo: Prepare-se.
O Frio lhe aguarda”