Ódio ideológico contra a medicina

A DESCONSTRUÇÃO DE UMA ELITE INTERMEDIÁRIA

Há um inequívoco ataque ideológico em curso contra a medicina. Não falo aqui da crítica – bem exagerada, diga-se de passagem, porém bem-vinda – feita por Ivan Illich contra uma tendência totalitária da intervenção médica na vida do indivíduo. Falo de um movimento nem sempre bem ordenado, mas movido por princípios maquiavélicos e revolucionários que atenta diretamente contra a profissão médica por meio da desconstrução da identidade profissional e da difamação daqueles que se dedicam à antiga arte hipocrática, visando sua submissão completa a um projeto ideológico de manutenção da hegemonia política.

Descreverei alguns exemplos ilustrativos desse ataque que ocorre há décadas, cada vez mais agressivo.

O ano era 2013, quando assisti à votação do Ato Médico, na qual seria analisada a formulação que regulamenta o que a medicina faz ou deixa de fazer no Brasil.

A época era de agitação. Médicos, enfermeiros, fisioterapeutas, educadores físicos e praticamente todos que iam às ruas naqueles momentos de levante popular clamavam por melhores meios de saúde para a população brasileira.

No calor das manifestações, um movimento que se iniciara dentro do curral ideológico das esquerdas radicais do Brasil, capitaneado por grupos de estudantes do Movimento Passe Livre ao lado das milícias dos black blocs, subitamente era invadido por famílias inteiras com pautas conservadoras e profissionais da saúde a pressionar o governo por melhores condições de serviço.

Observando a completa perda de controle do movimento nas ruas, os radicais declararam em alto e bom som que as manifestações estavam encerradas, mas as pessoas continuaram indo às ruas, cada vez em números maiores.

Partidos políticos tentaram assumir o leme das massas e, de forma surpreendente, foram rechaçados, às vezes com ofensas. Era um genuíno levante popular. O pavio com a elite política do Brasil estava curtíssimo.

Naquele momento de grandes pressões contra um governo que já dava sinais da queda vertiginosa em meio à corrupção sistêmica, foi orquestrada a votação do Ato Médico e foi anunciado o Programa Mais Médicos.

Durante a votação do Ato Médico, militantes raivosos infiltrados em Conselhos das outras profissões da saúde berravam que os médicos estavam querendo roubar a autonomia alheia.

Políticos demagogos e irresponsáveis, anunciavam descaradamente, na frente de milhares de pessoas, que médicos inventavam doenças para faturar em cima da desgraça alheia. Caía o Ato Médico conforme sua formulação original, recheado de vetos presidenciais, e estava fraturada a união entre profissionais da saúde em busca de melhores condições de trabalho. A antiquíssima técnica de dividir para conquistar fora novamente aplicada com sucesso.

Revertendo uma tendência de maior controle de qualidade dos médicos que tentavam o ingresso no Brasil por meio do Revalida, o governo dispara também a lei do Mais Médicos, permitindo a entrada de milhares de cubanos mediante a evasão de grandes fortunas para a ditadura genocida dos Castros e para a Organização Pan-Americana de Saúde, intermediadora de todo o processo e responsável pela logística, que faturou 5% de todos os bilhões de reais envolvidos.

O governo dizia que médicos brasileiros estavam em falta e que não queriam ir para o interior. É curioso que não tenham falado do fechamento de milhares de leitos também no interior do Brasil e nas condições desumanas de trabalho causadas pela má gerência de recursos humanos e materiais de um governo falido e corrupto.

A presidente Dilma, verdadeira tartaruga no poste, acusava o médico brasileiro de tratar mal o povo, elogiando o humanitarismo dos médicos alugados da ditadura dos Castros.

Todo um discurso de demonização do profissional brasileiro foi disseminado pela elite política e intelectual. Os médicos foram acusados de serem brutos, racistas, imperitos e cruéis com a população, que necessitava da salvação provida pelos estrangeiros.

Independente das intenções declaradas, discretas ou secretas, o que se atingiu foi a quebra da autoridade médica na sociedade brasileira. Isto é incontestável.

O Conselho Federal de Medicina perdeu o monopólio da capacidade de indicar quem pode exercer a medicina e quem não pode, dividindo tal atribuição com o Ministério da Saúde, que passou a inserir estrangeiros por fora do método oficial de revalidação de diplomas.

Não entro aqui nos detalhes de toda a difamação que foi feita, algo que ocuparia um grosso volume ainda a ser escrito por uma caridosa alma, quem sabe. Todavia, em termos políticos, a mais influente e rica classe dos profissionais da saúde foi quebrada. Teve sua autoridade política destruída. As palavras do atual Ministro da Saúde, um engenheiro, repetidas em três ocasiões diferentes, deixam bem claro o clima: “Vamos parar de fingir que pagamos os médicos e o médico parar de fingir que trabalha”.

Tal processo de destruição da autoridade política será seguido, inevitavelmente, pelo processo de destruição econômica e intelectual, transformando o médico em servo dependente da bondade governamental em um ambiente de excesso de mão de obra subempregada.

Por fim, acuados, desautorizados, espremidos entre demandas cruéis e medidas sufocantes, os médicos acabarão por perder a credibilidade moral, sendo cada vez mais alvos da desconfiança de seus pacientes.

Quando digo que há um ataque ideológico agressivo, não exagero de forma alguma. Citarei alguns exemplos entre muitos que presenciei.

O INSISTENTE ÓDIO DOS MILITANTES

Uma das facetas dessa campanha de ódio ostensivo contra a classe médica é a intervenção que observo em certos eventos acadêmicos por determinados grupos de professores e alunos que, executando uma interpretação totalizante e reducionista daqueles que enxergam como inimigos, acusam o médico de ser um opressor membro da elite.

Um grupo barulhento e agressivo de militantes tenta impor à medicina um discurso ideológico de ódio e intolerância. Tais críticos, embora acertem em parte quando miramos nos piores exemplos de nossa classe, contribuem diretamente para a hegemonia da velha elite política contra uma elite intermediária que poderia pressionar aquela em favor dos mais frágeis elementos da sociedade.

Discutíamos o programa de Mentoring em um congresso de educação médica há cerca de um ano. O Mentoring é uma experiência interessante e enriquecedora na qual um professor acompanha um grupo pequeno de alunos por toda a carreira acadêmica, preparando-os para a profissão e para a vida, oferecendo conselhos e apoio na caminhada. Tal experiência qualifica a educação e oferece óbvios ganhos para todos os envolvidos. Os mais novos ganham a oportunidade de aprender com os erros e acertos do mentor, mais experiente, e o mentor ganha ímpeto para continuar sempre em busca de aperfeiçoamento e para rever suas posturas.

Um dos objetivos do programa de Mentoring é justamente permitir que haja o estabelecimento de uma relação de confiança entre mestres e aprendizes, na qual um modelo profissional possa ser oferecido, mostrando uma cara bem humana a um ideal de profissão tantas vezes distante dos jovens estudantes de medicina que ingressam nas Escolas Médicas.

O papel do modelo profissional é essencial à formação humanística do aluno e, ouso dizer, até mesmo àquele que busca encarnar em sua vida tal modelo na condição de professor. Contudo, tal modelo está sob ataque ideológico.

Eis que nesse congresso de educação médica, no momento em que um dos palestrantes afirma que o Mentoring é um excelente momento humanístico para que o médico mais experiente saia de seu consultório e compartilhe um pouco de sua experiência e de sua vida com os alunos, oferecendo-se como amigo influente na caminhada, levanta-se uma professora que não era médica para promover sua “revolução”.

Com o dedo em riste, brada que esse era justamente o problema. O jovem médico, segundo a furiosa militante que vociferava exaltada, aprendia a reproduzir um modelo patriarcal, opressor, tecnicista, capitalista, flexneriano e burguês de médico, ou qualquer outra bobagem estúpida desse tipo.

Solenemente ignorada, entre risos discretos e comentários aborrecidos dos participantes em relação à falta de educação e de cordialidade demonstrada por ela, sentou-se bufando enquanto a reunião continuou. O ódio, felizmente, não colou. Os professores continuaram trocando informações sobre como promover o amadurecimento de seus alunos.

As críticas claramente foram percebidas por todos ali presentes como algo feito por alguém que, provavelmente, nunca participara de uma sessão de Mentoring na vida. Mas assim é o mundo abstrato da ideologia, um recorte muitas vezes odioso e odiento da realidade.

Em outro momento, ainda no mesmo congresso, enquanto um jovem estudante de medicina explicava as nobres iniciativas de estudo das Humanidades Médicas realizadas em sua escola, uma dessas militantes enraivecidas também se levantou – será que não era a mesma pessoa? – cobrando do aluno uma postura revolucionária e questionadora, que não reproduzisse o modelo ocidental e alienado (novamente os manjados adjetivos em série). O estudante explicou, com paciência e educação, seus intentos. Todos os que estavam ali para debater e aprender continuaram compartilhando experiências, o que não podia ser dito de quem fora lá para destilar sua dose diária de ódio revolucionário.

A maioria dos estudantes e professores é inteligente demais para cair nessa conversa mole ou para acatar a destruição ideológica de sua profissão sem repulsa; mas a pregação odienta não cessa, e a militância segue insistente e furiosa, patrocinada por gordas verbas estatais e dirigidas pelos marotos intelectuais orgânicos gramscianos.

Aos poucos, médicos e estudantes caem na cilada de achar que a medicina pode ser o que quiserem, que a medicina pode ser um joguete na mão de ideólogos exaltados e raivosos que no fundo estão a pensar somente em suas revoluções, enquanto o paciente sofre com sua doença.

Alguns caem na cilada de achar que a medicina se reduz a mero instrumento de um projeto político de tomada e controle de poder, projetando nos outros o que anima o próprio coração repleto de maquiavelismo tosco.

Priorizar agendas revolucionárias no lugar da verdadeira medicina acabará por destruí-la, ferindo justamente o elemento mais frágil de toda a situação: o paciente que tanto necessita de ajuda qualificada.

Aceitar o papel de inocente útil ideológico e transformar a saúde humana em guerra ideológica equivale a assinar o atestado de óbito da profissão médica enquanto se despreza o bem alheio. O que permite ao médico promover o bem é a adesão à realidade do seu paciente, à realidade de sua profissão e aos valores atemporais, vivendo acima dos rasos e mesmerizantes conflitos ideológicos movidos por interesses alheios.

A medicina não é compatível com qualquer ideologia. Ou exercemos a medicina para valer e defendemos sua identidade contra esses ataques ideológicos, de forma consistente e valorosa, pagando o mal como bem, ou nos submeteremos às pressões da hora e sucumbiremos perante à horda do ódio. Temos que ser prudentes como a serpente diante dos maus, e símplices como as pombas diante do que precisam de ajuda.

Esses militantes que compõem a despersonalizante e agressiva horda ideológica comprovaram uma simples e assustadora verdade em todas as ocasiões nas quais convenceram as massas e os médicos de seus intentos, subjugando a profissão a ideologias toscas: abandonar o projeto hipocrático leva ao derramamento do sangue inocente dos mais frágeis aos borbotões.

Elemento essencial desse projeto hipocrático é servir aos valores tradicionais da beneficência e ao paciente, sem ceder à despersonalizante tentação da servidão ao Estado ou a ideologias excêntricas.

Quem avisa amigo é!

Hélio Angotti Neto

22 de agosto de 2017, Colatina, ES.

Fonte: SEFAM

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